A Tradição como Contracultura: as Antigas Tradições Marciais Japonesas como Via de Oposição Estratégica

A Tradição como Contracultura: as Antigas Tradições Marciais Japonesas como Via de Oposição Estratégica

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contracultura s.f (1968) 1 mentalidade dos que rejeitam práticas da cultura dominante da qual fazem parte 2 ideário altercador que questiona valores culturais vigentes 3 oposição a um modelo comportamental escolhido por um grupo privilegiado de pessoas 4 oposição estratégica

tradição s.f (1619) 1 ato ou efeito de transmitir ou entregar; transferência 2 comunicação de fatos, lendas, ritos, usos e costumes que dão sentido a uma cultura 3 herança cultural, legado de crenças e técnicas passadas de geração em geração 4 conjunto de valores morais, éticos e espirituais de uma civilização


1. INTRODUÇÃO

As Artes Marciais Japonesas conquistaram o mundo. Isso é um fato. Mas porquê?

Tendo se diferenciado de suas origens chinesas no início do século X, com o surgimento da katana, os primeiros registros históricos sobre instruções marciais no Japão datam de 1159 d.C, especificamente no Templo Budista de Kurama, em Kyoto.

Particularmente, o adestramento bélico de alto desempenho, associado a preceitos místicos profundos, é o que configura as tradições marciais japonesas como arte, o que não acontece na maioria dos sistemas atuais de combate.

É nesse contexto, bélico e místico ao mesmo tempo, que o indivíduo conseguia preencher a totalidade de suas Esferas Mentais com uma vontade orientada, ligando o conceito de vazio à utilidade prática – e não a depressão.

Nesse artigo, analisaremos, através das categorias Operações e Mística, porque as antigas tradições marciais japonesas podem se configurar, atualmente, como uma via de Oposição Estratégica à pós-modernidade, concluindo se tais artes conseguem combater o vazio existencial típico do nosso tempo.

2. DESENVOLVIMENTO

a. A Operacionalidade das Antigas Tradições Marciais Japonesas Hoje

É através da vontade orientada, aprendida na prática marcial, que o indivíduo se impõe ao mundo. Diferente da mera instintividade animal, é a racionalidade vinculada a metafísica que busca meios de superar as limitações que a matéria determina ao Espírito. Quando o materialismo se sobrepõe à espiritualidade ou quando é negada a existência do Espírito Humano, instaura-se então uma agonia crescente, conforme conceitua Kierkegaard, que cedo ou tarde se manifesta como vazio existencial – e até como ideação suicida.

Diferente da maioria dos sistemas de valores atuais, a cultura japonesa somente sucumbiu à modernidade quando o Almirante Perry, em 1853, forçou a abertura do Japão através da ameaça militar. No mesmo sentido, o Japão foi forçado a entrar na pós-modernidade depois de ser bombardeado em Hiroshima e Nagasaki. Isso evidencia uma resistência nipônica em abandonar o Mundo da Tradição, como diria Evola, preservando uma postura de enfrentamento existencial de raízes pré-modernas.

Segundo Zoughari, de todas as tradições marciais japonesas, somente aquelas familiarizadas em “operar nas sombras” puderam resistir à degradação cultural que o Japão sofreu nos últimos séculos. Assim, foram os estilos marciais desenvolvidos pelas famílias das regiões de Iga e Koga, historicamente associadas aos ninja, que conseguiram sobreviver relativamente intactos até hoje. Essa resistência está presente no conceito nin, que significa, em termos gerais, “perseverar através do sigilo” – e está operacionalizada no Ninjutsu, definição geral que cataloga os estilos marciais daquelas famílias.

Atualmente, é possível aprender uma versão do Ninjutsu que ainda preserva os princípios bélicos originais da tradição japonesa. Entretanto, fruto da Confusão Estratégica que permeia e dificulta todo caminho de libertação espiritual, seja ele qual for, o mundo moderno conseguiu transformar o antigo “guerreiro das sombras” em uma corruptela arquetípica de suas projeções mais sombrias, estando hoje o caminho até um dojo autêntico, repleto de “fake-jutsu”.

Assim, podemos concluir, parcialmente, que as antigas tradições marciais japonesas, particularmente aquelas desenvolvidas no seio das famílias de Iga e Koga e catalogadas genericamente como Ninjutsu, sobreviveram às invasões militares ao Japão, tanto em 1853 como após 1945 e ainda estão acessíveis àquele que tiver a predisposição e a vontade suficientes para praticá-las.

b. A Mística sobrevivente nas Antigas Tradições Marciais Japonesas

O conceito moderno de arte se distanciou bastante de sua raiz grega areté, cujo significado se relaciona com adaptação perfeita, excelência e virtude. Muito além da simples comunicação estética, a Arte Marcial contempla a ideia original de finalidade prática, mesmo quando o objetivo perseguido é espiritual. É nesse sentido que os estilos de combate japoneses, especialmente aqueles nascidos em Iga e Koga e vinculados à prática do Ninpo, possuem a capacidade de despertar e iluminar metafisicamente o seu praticante. Em termos pós-modernos: combater o vazio existencial.

O Ninpo, algo mais complexo que o sincretismo regionalizada entre Xintoísmo, Budismo e Taoísmo, após a chegada desses dois últimos ao arquipélago japonês, vindos da China e após a queda da Dinastia Wo-Tang, foi uma cultura que se desenvolveu na psicorregião de Iga e Koga, criando profundas raízes metafísicas e materializando-se como uma prática marcial que leva ao despertar e a iluminação, ou seja, que proporciona o Processo de Individuação, segundo o conceito de Jung. É interessante notar que o Ninpo como religião e filosofia e o Ninjutsu como prática marcial, ainda hoje preservam suas raízes pré-modernas e por isso combatem, automaticamente, o vazio existencial pós-moderno.

A raiz nin, por sua vez, está relacionada ao Yin, ao inconsciente, ou seja, a parte interna do Tao, da totalidade. Isso significa que a prática do Ninpo, em última instância, redunda em autoconhecimento, em conhecer-se a Si Mesmo. Esse aspecto das tradições marciais japonesas, centradas no esoterismo budista, configura-se hoje como uma Contracultura, como Guerra Irregular ou Assimétrica (o Yin complementário ao Yang da Guerra Regular ou Simétrica) pois combate a sedução exclusivamente materialista de satisfação neuroquímica através de prazeres fugazes, fúteis, de onde brotam o vazio existencial que, em sua última fase, desemboca na ideação suicida.

Muito além da pergunta se é ou não possível aprender Ninjutsu atualmente, está a necessidade urgente de se praticar o Ninpo! Isso porque, das várias ferramentas de “desenvolvimento pessoal” disponíveis atualmente, muito poucas são aquelas centradas no Processo de Individuação e, pior ainda, quase nenhuma possui raízes pré-modernas, ou seja, quase nenhuma possui a chancela, o selo de garantia da Tradição e é nesse contexto que o Ninpo se faz ainda mais atual quando diz que “somente quem possui luz própria pode caminhar na escuridão”.

Desse modo, podemos concluir, de modo ainda parcial, que as antigas tradições marciais japonesas, particularmente aquelas centradas no Ninpo, na mística regional de Iga e Koga, conseguiram sobreviver ao processo de degradação cultural japonês e ainda preservam suas raízes tradicionais, focando no aspecto interno da arte e que isso redunda em autoconhecimento, em despertar e iluminação, ou seja, no Processo de Individuação, segundo o conceito junguiano – e que esse processo é a chave para se combater o vazio existencial que acomete o homem pós-modernizado.

3. CONCLUSÃO

A morte é a única certeza da vida, diria Heidegger. Estar plenamente consciente dessa certeza é o cerne do ensinamento místico das antigas tradições bélicas japonesas, particularmente aquelas que sobrevivem à manifestação do Kali Yuga, ao processo de entropia da Idade de Ferro, à liquidez do mundo pós-moderno, ou seja, à marcha inexorável do tempo.

Em síntese, podemos dizer que a Arte Ninja, a conjunção entre Ninpo e Ninjutsu, dualidades de um mesmo Tao, por sua inteireza, por sua integralidade, por ter preservado sua tradição e não ter abandonado suas raízes pré-modernas, apresenta-se como uma via de Oposição Estratégica viável e disponível ao ser humano desperto, na sua luta diária contra o mundo pós-moderno.

Os estilos tradicionais de combate desenvolvidos na região de Iga e Koga, por estarem centrados na mística xinto-tao-budista do Ninpo, operacionalizam um estilo de vida que proporciona o Processo de Individuação, conforme conceitua Jung e esse conhecimento sobrevive até hoje em poucas e específicas escolas de artes marciais japonesas, inclusive aqui no Brasil.

É importante salientar que a falta de consideração às instâncias metafísicas do Ser Humano, que a negação da realidade psíquica inconsciente e sua necessidade de manifestação, desemboca no vazio existencial comum atualmente. A Arte Ninja autêntica – e não os “fake-jutsu” – proporciona o desenvolvimento do corpo e iluminação da mente, através do despertar do Espírito – e isto está ausente nos sistemas de luta de raiz moderna e pós-moderna, exclusivamente mecanicistas.

Por fim, podemos concluir então que a prática de Artes Marciais Tradicionais Japonesas, de raízes pré-modernas, especificamente o NinpoNinjutsu, possuem a capacidade sim de combater o vazio existencial característico da pós-modernidade, despertando um “Espírito Ninja” que comunga de valores antiquíssimos, quando o Ser Humano era e ainda estava, naturalmente, divinizado.


Referências Bibliográficas

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KIERKEGAARD, Soren. O Conceito de Angústia. Petrópolis: Vozes, 2013.

TURNBULL, Stephen. Ninja: Desmascarando o Mito. Barnsley: Frontline, 2017.

ZOUGHARI, Kacem. A História Secreta do Ninjutsu. Clarendon: Tuttle, 2016.